William Carey (1761-1834)
William Carey, um pobre sapateiro inglês, era um fraco candidato para a grfandeza. Todavia, ele foi apropriadamente chamado de “Pai das Missões Modernas”. Mais do que qualquer outro indivíduo na história moderna, instigou a imaginação do mundo cristão e mostrou pelo seu humilde exemplo o que poderia e deveria ser feito a um mundo perdido sem Cristo. Embora ele enfrentasse provocações pesadas durante seus quarenta anos de carreira, Carey demonstrou uma determinação obstinada em obter sucesso e nunca desistiu. Seu segredo? “Posso trabalhar. Posso perseverar em qualquer alvo definido. A isto devo tudo.”¹ A vida de Carey ilustra profundamente o potencial ilimitado de um homem bastante comum. El era um homem que, sem a sua dedicação a Deus, sem dúvida teria tido uma existência medíocre.
Carey nasceu em 1761 perto de Northampton, Inglaterra. Seu pai era tecelão e trabalhava num tear em sua própria casa. Embora a pobreza fosse a regra geral para as famílias como a de Carey, a vida era simples e nada complexa. A Revolução Industrial tinha apenas começado a substituir as indústrias caseiras por confeitarias sujas e tecelagens barulhentas. A infância de Carey foi rotineiro, exceto por problemas persistentes de alergia que o impediram de concretizar seu sonho de tornar-se jardineiro. Ele foi, em lugar disso, colocado como aprendiz de sapateiro aos 16 anos e continuou nessa profissão até os 28. Foi convertido na adolescência e logo depois associou-se ativamente a um grupo de Dessidentes Batistas, dedicando seus momentos de folga ao estudo bíblico e ministérios leigos.
Em 1781, antes do seu vigésimo aniversário, Carey casou-se com a cunhada de seu empregador. Dorothy tinha mais que cinco anos do que Carey e como muitas das mulheres inglesas de sua classe eram analfabetas. A união desde o início mostrou-se desarmoniosa e com o passar do tempo e a ampliação dos horizontes de Carey, o abismo que os dividia cresceu mais ainda. Os primeiros anos de casamento foram difíceis e pobres. Durante algum tempo, Carey não teve apenas a responsabilidade de sua mulher e família em rápido crescimento, como também da viúva do seu falecido empregador e seus quatros filhos.
Apesar das dificuldades econômicas, Carey não desistiu de seus estudos e pregação leiga e em 1785 ele aceitou o convite para tornar-se pastor de uma pequena igreja batista onde serviu até que fosse chamado para uma igreja maior em Leiscester, embora mesmo ali fosse forçado a manter-se empregado para sustentar a família. Durante esses anos no pastorado, sua filosofia de missões começou a tomar forma, inflamada inicialmente pela leitura das “Viagens do Capitão Cook”. Aos poucos desenvolveu uma perspectiva bíblica do assunto e convenceu-se de que as missões estrangeiras eram a responsabilidade principal da igreja. Suas idéias eram revolucionárias. Muitos, se não a maioria, dos religiosos do século XVIII criam que a Grande Comissão fora dada apenas aos apóstolos; portanto, a conversão dos “pagãos” não era problema deles, especialmente quando não tivesse ligada ao colonialismo. Quando Carey apresentou suas idéias a um grupo de ministros, um deles replicou: “Jovem, sente-se. Quando Deus quiser converter os pagãos, ele o fará sem a sua ajuda ou a minha”.² Mas Carey recusou calar-se. Na primavera de 1792 ele publicou um livro de 87 páginas que teve conseqüências de longo alcance e tem sido comparado às 95 Teses de Lutero em sua influência sobre a história cristã.
Pastores Batistas Reunidos
O livro Uma Inquirição sobre a Responsabilidade dos Cristãos em Usarem Meios para a conversão dos Pagãos (sendo esse um título abreviado), apresentava muito bem a defesa das missões estrangeiras e procurava minimizar os argumentos que dramatizavam a impossibilidade de enviar missionários a terras distantes. Depois de publicar o livro, Carey falou a um grupo de ministros numa Associação Batista em Notthingham, onde desafiou a audiência através de Isaías 54:2-3 e pronunciou sua agora famosa sentença: “Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus”. No dia seguinte, em grande parte devido à sua influência, os ministros decidiram organizar uma nova junta de missões, que tornou-se conhecida como Sociedade Batista Missionária. A decisão não foi tomada precipitamente. A maioria dos ministros da Associação, como Carey, viviam com salários de fome e o envolvimento em missões no estrangeiro significava tremendos sacrifícios financeiros tanto da parte deles como de suas congregações.
Andrew Fuller, o ministro mais proeminente a favor da nova sociedade, tornou-se seu primeiro secretário nacional e o primeiro missionário nomeado foi John Thomas, um batista leigo que havia ido para a Índia como médico da esquadra real e permaneceu depois de seu período de serviço a fim de trabalhar como médico e evangelista-missionário independente. Carey imediatamente ofereceu-se à nova sociedade como “companheiro adequado” de Thomas e foi entusiasticamente aceito.
Embora Carey já estivesse há muito tempo avidamente interessado no assunto das missões, a decisão de oferecer-se para servir no estrangeiro foi nada menos que repentina. O fato de sua igreja ficar perturbada com a perda de seu pastor e seu pai julgá-lo “louco” poderiam ser facilmente desconsiderados mas a reação de sua mulher deveria tê-lo feito refletir melhor. Com três filhos pequenos e o quarto a caminho, não é de admirar que Dorothy se opusesse inflexivelmente a deixar sua pátria e embarcar numa viagem arriscada de cinco meses (complicada pela recente declaração de guerra da França contra a Inglaterra) para passar o resto de sua vida num clima tropical insalubre como a da Índia. Outras mulheres haviam feito sacrifícios desse tipo voluntariamente e milhares de outras o fariam no futuro, mas Dorothy era diferente. Se existe uma “Mãe das Missões Modernas”, não foi certamente ela, pois recusou-se terminantemente a ir.
Se Dorothy pensou que sua recusa em acompanhar o marido iria fazê-lo mudar de idéia, estava enganada. Carey, embora aflito com a decisão dela, estava decidido a partir, mesmo que isso significasse seguir sozinho. Ele continuou com seus planos, que incluíram a compra de uma passagem para Félix, seu filho de oito anos. Em março de 1793, depois de meses de delongas, Carey e Thomas foram finalmente comissionados pela Sociedade. No mês seguinte, juntamente com Félix e a mulher e filha de Thomas, eles tomaram um navio no rio Tâmisa que os levaria à Índia. Mas a viagem terminou repentinamente em Portsmouth, na Inglaterra. Problemas de dinheiro (por causa de Thomas e seus credores descontentes) e a falta de uma licença impediu que prosseguissem.
A demora foi uma decepção para os missionários, mas levou a mudanças dramáticas nos planos. Dorothy, que dera à luz três semanas antes, concordou com relutância em juntar-se ao grupo com seus filhos pequenos, desde que Kitty, sua irmã mais jovem, a acompanhasse. A obtenção de fundos para os novos passageiros não foi fácil, mas a 13 de junho de 1793 eles tomaram um navio dinamarquês e partiram para a Índia. A longa e perigosa viagem ao redor do Cabo da Boa Esperança teve seus momentos terríveis, mas a 19 de novembro eles aportaram a salvo na Índia.
A época de sua chegada não se mostrou favorável para o estabelecimento do trabalho missionário. A Companhia das Índias Orientais tinha virtualmente o controle do país e sua hostilidade contra o trabalho missionário se fez logo sentir. A companhia temia qualquer coisa que pudesse interferir em seus lucrativos empreendimentos comerciais e Carey bem depressa percebeu sua condição indesejável. Com medo da deportação, ele mudou-se com a família para o interior. Ali, cercados pelos pântanos cheio de malária, os Careys viveram em tristes circunstâncias. Dorothy e os dois meninos mais velhos ficaram muito doentes e os cuidados com a família exigiam a atenção constante de Carey. Seus sonhos idealistas do trabalho missionário estavam rapidamente desaparecendo. Carey também sofria com o fato de sua mulher e Kitty “reclamarem continuamente”³ contra ele e se ressentirem da família Thomas estar vivendo com fartura em Calcutá. Depois de alguns meses as dificuldades deles foram aliviadas pela bondade e generosidade do Sr. Short, funcionário da Companhia das Índias Orientais, que teve pena deles e acolheu-os em sua casa por quanto tempo desejassem ficar, embora fosse incrédulo. Pouco depois, porém, os Careys se mudaram para Malda, cerca de quatrocentos e oitenta quilômetros, onde Carey conseguiu empregar-se como capataz numa fábrica de anil (corante).
Os anos em Malda foram difíceis. Embora Carey estivesse satisfeito em sua nova posição e descobriu que a fábrica era uma boa escola de línguas e campo propício à evangelização, os problemas familiares persistiam. Kitty, que ficara para casar-se com o Sr. Short, não estava mais com eles e a saúde física e mental de Dorothy declinava cada vez mais. A morte trágica do pequeno Peter de cinco anos foi a última gota. Ela jamais recuperou completamente as faculdades mentais. A situação agravou-se e mais tarde vários co-obreiros e descreram como “totalmente louca”.
William Carey
Apesar da situação traumática da família e de continuar trabalhando na fábrica, Carey não esqueceu a finalidade de sua presença na Índia. Ele passava horas todos os dias traduzindo a Bíblia e também pregava e estabelecia escolas. Em fins de 1795, uma igreja batista fora instalada em Malda. Era um começo, embora o total de membros fosse de apenas quatro e todos ingleses. Os cultos, porém, atraíam grandes multidões do povo bengalês e Carey podia afirmar com convicção que “o nome de Jesus Cristo tornou-se agora conhecido nesta região”. Mas não houve fruto. Depois de quase sete anos de trabalho em Bengala, Carey não podia reinvidicar um só convertido indiano.
Apesar de sua falta de sucesso exterior, Carey estava satisfeito com seu trabalho missionário em Malda e ficou bastante decepcionado por ter de partir em 1800. Novos missionários haviam chegado da Inglaterra e para evitar as perturbações contínuas da Companhia das Índias Orientais, eles se estabeleceram perto de Calcutá, no território dinamarquês de Serampore. A ajuda de Carey tornou-se urgentemente necessário na instalação de um novo posto missionário para acomodá-los e ele partiu então com relutância de Malda em companhia da família.
Serampore logo se transformou no centro da atividade missionária batista na Índia e foi ali que Carey passou os 34 anos restantes de sua vida. Carey e seus colaboradores, Josué Marshman e William Ward, conhecidos como o Trio de Serampore, se tornariam uma das mais famosas equipes missionárias na história. O posto missionário, que alojava dez missionários e seus nove filhos, apresentava uma atmosfera familiar. Os missionários viviam juntos e tinham tudo em comum, como fizera a primeira igreja no livro de Atos. Nas noites de sábado, ele se reuniam para orar e externar suas reclamações, sempre “ prometendo amar uns aos outros”. As responsabilidades eram divididas segundo a capacidade de cada um e o trabalho prosseguia sem problemas.
O grande sucesso da Missão de Serampore durante os primeiros anos pode ser credita em grande parte a Carey e seu comportamento santo. Sua disposição para sacrificar os bens matérias e ultrapassar o chamado do dever foi sempre um exemplo contínuo para os demais. Além disso ele tinha grande habilidade para relevar as faltas alheias. Mesmo com relação a Thomas, que fez mau uso dos fundos da missão, tornando-se um embaraço devido ao seu endividamento descuidado, Carey podia dizer: “Eu o amo e vivemos na maior harmonia”. Ao descrever seus colaboradores, Carey escreveu: “O irmão Wards é justamente o homem de quem precisamos... Ele participa do trabalho de toda a sua alma. Eu o aprecio muito... O irmão Marshman é um prodígio de diligência e cautela, assim como sua esposa...”⁵
Serampore era um exemplo harmonioso de colaboração missionária e houve resultados para provar isso. Foram organizadas escolas, levantou-se uma grande estrutura para o estabelecimento de uma impressora e, acima de tudo, o trabalho de tradução era continuamente feito. Durante seus anos em Serampore, Carey fez três traduções da Bíblia inteira (bengalês, sânscrito e marathi), ajudou em outras traduções da bíblia inteira e traduziu o Novo Testamento e porções bíblicas em muitas outras línguas e dialetos. Infelizmente, a qualidade de suas obras nem sempre combinava com a quantidade. O Secretário Nacional, Andrew Fuller repreendeu-o pela ortografia inconsistente e outros problemas na cópia que enviou à Inglaterra para ser ali impressa: “jamais conheci alguém que conhecesse tantas outras línguas, como professa conhecer, que escreve tão mal em inglês... Você amontoa meia dúzias de sentenças numa só... Se o seu N.T bengalês tiver esse tipo de pontuação tremo pelo seu destino...”⁶ Os temores de Fuller eram bem fundados e Carey, para sua grande decepção, descobriu que parte do seu trabalho era incompreensível. Mas o infatigável tradutor não desistiu. Ele voltou à mesa de trabalho e refez toda a sua tradução até ter a certeza de que podia ser compreendida.
A evangelização era também uma parte importante do trabalho em Serampore e um ano após o estabelecimento da missão os missionários se alegraram com o seu primeiro convertido. No ano seguinte, houve mais convertidos, mas de modo geral a evangelização progrediu lentamente. fCerca do ano de 1818, depois de 25 de missões batistas na Índia, havia mais ou menos 600 convertidos batizados e mais alguns milhares que compareciam às aulas e cultos.
Colégio Serampore
Mesmo tendo o dia ocupado com traduções e trabalho evangelístico, Carey sempre achava tempo para fazer mais coisas. Um de seus maiores empreendimentos foi a fundação do Colégio Serampore, em 1819, para o treinamento de fundadores de igrejas e evangelistas nativos. A escola começou com 37 alunos indianos, dos quais mais da metade era constituída de cristãos. Outra área de empreendimento educacional em que se envolveu foi o ensino secular. Logo depois de chegar a Serampore foi convidado a tornar-se Professor de Línguas Orientais no Colégio de Fort William em Calcutá. Tratava-se de uma grande honra para Carey, um sapateiro inculto, ser convidado para preencher tão elevada posição, a qual foi aceita por ele com o apoio entusiasta de seus companheiros. A posição não só proporcionou uma renda muito útil aos missionários, mas também colocou-os em melhor situação diante da Companhia da Índias Orientais e deu a Carey uma oportunidade para aperfeiçoar seu conhecimento de línguas enquanto procurava responder às perguntas dos alunos.
Devido às suas multiplicas ocupações, Carey não podia cuidar de seus filhos como seria necessário. Mesmo quando se achava na companhia deles, sua natureza dócil impedia a aplicação de uma disciplina firme, cuja falta se manifestava claramente no comportamento dos meninos. Ao falar desta situação, Hannah Marshman escreveu: “ O bom homem via e lamentava o mal, mas era bando demais para aplicar uma correção eficaz”.⁷ Felizmente, a Sra. Marshman interferiu. Se não fosse pelas reprimendas severas dessa querida senhora e a preocupação paternal de William Ward, os filhos de Carey teriam seguido completamente suas próprias inclinações.
Em 1807, aos 51 anos de idade, Dorothy Carey morreu. Carey sentiu-se sem dúvida, aliviado. Ela há muito tempo deixara de ser um membro útil da família missionária, sendo na verdade um impedimento para a obra. John Marshman escreveu como Carey quantas vezes trabalhava em suas traduções, enquanto uma mulher insana, frequentemente alterada ao máximo, se encontrava no quarto junto ao seu.⁸
Durante seus anos em Serampore, Carey fizera amizade com Lady Charlotte Rumohr Nascida na família real dinamarquesa e vivendo em Serampore na esperança de que o clima fizesse bem à saúde frágil. Apesar de ter chegado incrédula a Serampore, ela assistia aos cultos na missão, sendo depois convertida e batizada por Carey em 1803. Depois disso começou a dedicar seu tempo e dinheiro à obra da missão. Em 108, apenas alguns meses depois da morte de Dorothy, Carey anunciou seu noivado com Lady Charlotte, e ao fazer isso causou um terremoto na geralmente tranqüila família missionária. A oposição foi tão grande que chegaram a fazer circular uma petição a fim de impedir o casamento; mas quando seus colegas compreenderam que ele estava mesmo decidido, retraíram-se e aceitaram o inevitável. A cerimônia nupcial, conduzida por Marshman, teve lugar em maio, exatamente seis meses depois de Dorothy ter sido enterrada.
O casamento de Carey com Charlotte foi feliz, tendo durado treze anos. Durante essa época ele esteve verdadeiramente apaixonado, talvez pela primeira vez em sua vida. Charlotte tinha uma mente brilhante e um dom para a lingüística, tornando-se uma auxiliar valiosa para Carey em seu trabalho de tradução. Ela também se aproximou dos meninos e foi para eles a mãe que jamais haviam tido. Quando veio a morrer em 1821, Carey escreveu: “Nossa vida conjugal foi tão feliz como bem pouco mortais puderam ser”. Dois anos mais tarde, Carey, ais 62 anos de idade, casou-se novamente, desta vez com Grace Hughes, uma viúva de 45 anos. Apesar de Grace não ser tão bem dotada intelectualmente quanto Charlotte, Carey elogiou-a por seu “cuidado constante e infatigável e excelente trato” durante suas doenças freqüentes.⁹
Uma das perdas mais devastadoras que Carey sofreu durante os 40 anos ininterruptos de vida na Índia, foi o desaparecimento de seus valioso manuscritos num incêndio ocorrido num depósito, em 1812. Carey se achava ausente na ocasião, mas a medonha notícia de que seu enorme dicionário poliglota, dois livros de gramática e versões inteira da bíblia haviam sido destruídos não podia ser ocultada. Se tivesse um temperamento diferente, é possível que Carey jamais tivesse se recuperado; mas ele aceitou a tragédia como um juízo do Senhor e começou tudo novamente com zelo ainda maior.
Os primeiros quinze anos de Carey em Serampore foram anos de colaboração e trabalho em equipe. Exceto por problemas ocasionais, tais como os relacionamentos com seu segundo casamento, a pequena comunidade batista na Índia viveu em harmonia. Talvez a situação fosse boa demais para ser verdadeira, mas de qualquer forma a paz não durou e os últimos quinze anos que se seguiram foram cheios de perturbações. O espírito de unidade desfez-se quando novos missionários chegaram e não se sujeitaram a viver à maneira comunitária dos missionários de Serampore. Um deles exigiu “uma casa separada, estábulo e serviçais”. Havia também outras diferenças. Os novos missionários acharam os veteranos, especialmente Josué Marshman, ditatoriais, designando-lhes deveres e posições que não lhes agradavam. Os novos missionários estavam, sem dúvida, justificados em sentir-se diminuídos. Os obreiros mais velhos haviam-se cristalizado em seu sistema e não aceitavam modificações. Mas se a equipe mais nova tivesse manifestado o amor e longanimidade característica do grupo de Serampore, as diferenças poderiam ter sido superadas. Infelizmente, esse não foi o caso. Acusações amargas foram feitas contra os veteranos e o resultado foi a divisão dos dois grupos.
Os missionários mais novos formaram a União Missionária de Calcutá e começaram a trabalhar a apenas alguns quilômetros de seus irmãos batistas. “Indelicada” foi a expressão usada por William Ward para descrever a situação.¹⁰
O problema tornou-se ainda mais crítico quando o Comitê Nacional recebeu as notícias e envolveu-se na questão. O primeiro comitê, dirigido por Andrew Fuller, não existia mais. Aquele pequeno comitê de três pessoas havia multiplicado seu tamanho várias vezes, e a maioria dos membros só conhecia Carey pelas suas cartas. Fuller e um dos outros primeiros membros haviam morrido, deixando o comitê nacional claramente a favor dos membros mais jovens a quem tinham nomeado pessoalmente como missionários. Enquanto Fuller estivera na direção, ele insistira em que Serampore fosse independente por duas razões: “Uma é que julgamos que são mais capazes de governar a si mesmo do que nós de governá-los. Outra é que estão muito distantes para aguardar orientação de nossa parte”.¹¹ Mas o comitê nacional reconstruído discordava completamente. Os membros acreditavam que os importantes negócios na missão de Serampore deveriam fica sob o seu controle direto. Finalmente, em 1826, depois de anos de conflito desgastante, a Missão de Serampore cortou relações com a Sociedade Missionária Batista.
O afastamento final entre Serampore e a Missão Batista foi um golpe financeiro para os missionários de Serampore. Embora a equipe de Serampore tivesse sido financeiramente auto-suficiente durante a maior parte de sua história, recebendo apenas uma pequena porcentagem de seus fundos da Inglaterra, os tempos estavam mudando. Havia missionários em mais de uma dúzia de postos que precisavam de sustento e cuidados médicos eram necessário para outros. A equipe de Serampore não podia cuidar de todos. Carey e Marschman (Ward já havia morrido) não tivera escolha senão engolir o seu orgulho e submeter-se à autoridade da Sociedade. Logo depois, uma soma substancial de dinheiro e cartas bondosas chegaram da parte de comitê nacional. O processo de cura começara.
Carey morreu em 1834, mas não antes de deixar sua marca na Índia e nas missões de todos os tempos. Sua influência na Índia ultrapassou seus empreendimentos lingüísticos maciços, suas instituições educacionais e os seguidores cristãos que pastoreava. Ele causou também notável impacto sobre práticas indianas prejudiciais através de suas lutas contra a queima de viúvas e o infanticídio. Mas, em outros aspectos, procurou deixar a cultura intacta. Carey estava avançado no tempo na metodologia missionária. Ele tinha um respeito reverente pela cultura hindu e jamais tentou importar substitutos ocidentais, como tantos missionários que vieram após ele procuraram fazer. Seu objetivo era fundar uma igreja nativa “através de pregadores locais”, fornecendo as Escrituras na língua nativa e foi com essa finalidade que dedicou sua vida. Porém, a influência de Carey não se fez sentir apenas na Índia. Seu trabalho estava sendo seguido de perto não só na Inglaterra, mas também no Continente e nos Estados Unidos onde a inspiração derivada de seu exemplo ousado ultrapassou em importância todos os seus empreendimentos na Índia.
Notas
[1] Mary Drewery, William Carey: A Biography (Grand Rapids: Zondervan, 1979), 25.
[2] J. Herbert Kane, A Concise History of the Christian World Mission (Grand Rapids: Baker, 1978), 85.
[3] Drewery, William Carey, 70.
[4] Drewery, William Carey, 89.
[5] Drewery, William Carey, 69, 111.
[6] Drewery, William Carey, 102.
[7] Drewery, William Carey, 115.
[8] Drewery, William Carey, 146.
[9] Drewery, William Carey, 183,185.
[10] Drewery, William Carey, 173.
[11] Drewery, William Carey, 166.
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